Biblioteca: Floresta, 2021

SESC Belenzinho- São Paulo, SP

 A exposição Biblioteca: Floresta trata-se de uma revisão e ampliação de sua apresentação original, que aconteceu em 2018 no Museu de Arte de Ribeirão Preto – MARP como desdobramento do projeto de residência da Biblioteca Pedro Manuel-Gismondi realizado por Simone Moraes no período de 2017 - 2019

Outras artistas participantes: Adelaide Ivánova, Aline Albuquerque, Aline van Langendonck, Andréa Tavares, Carmela Gross, Fernanda Porto, Isabella Assad, Janina McQuoid, Júlia Ayerbe e Laura Daviña, Laura Berbert, Lívia Aquino, Lucia M. Loeb, Maíra Dietrich, Mayana Redin, Mayra Martins Redin, Natalie Salazar, Neide Sá, Paloma Durante, Raphaela Melsohn, Raquel Stolf, Regina Parra, Renata Cruz, Simone Barreto e Vera Chaves Barcellos.

 

Curadoria de Galciani Neves 

A exposição discutiu experimentações que mesclaram procedimentos poéticos do campo das artes visuais e da literatura. Assim, textos, narrativas ficções, palavras foram conjugadas no feminino. Em tempos de intensas lutas, reinvindicações de discussões que alertam para a intensa desigualdade de gênero, reivindicaram um olhar apurado do público para a palavra como matéria-prima e para o lugar de fala da mulher na contemporaneidade. 41 obras, que variam entre esculturas, gravuras, desenhos, pinturas, publicações, apropriações de livros, ficções, instalações, performances, textos, áudios e vídeos.

 Arrancar palavras que nos foram extraviadas e torná-las nossas e de nossas línguas novamente. É com a força desses gestos que erguemos essa mostra. A constituição desse projeto iniciou-se em fins de 2017, em Ribeirão Preto (São Paulo), numa conversa sobre os fluxos poéticos, afinidades e fricções entre as artes e a literatura. Sua primeira versão aconteceu no MARP (Museu de Arte de Ribeirão Preto), em fevereiro de 2018; e a segunda versão aconteceria em 2020, no Sesc Belenzinho, mas foi impedida pela pandemia.  À época, uma pergunta se desenhou e ainda ecoa: qual ação, letra, língua/corpo possível pode ser palavra, voz, narrativa conjugada e imaginada por mulheres? Uma pergunta-semente germinando em nossos corpos, enquanto se infiltrava terra adentro com sua minúsculas raízes, ao mesmo tempo que aspirava ao céu. Uma pergunta-indignação que foi gerado outras ramificações: como fazemos circular nossas palavras, apesar das convicções patriarcais que nos aplacam cotidianamente? O que reverberam as práticas e produções de mulheres quando condizem os crivos de um sistema classista, sexista, racista e colonial? O que teima em moldar nossas vozes? 

 Se toda a nossa formação, como mulheres, como gente que trabalha e cria no e apesar do capitalismo, é calcada afetiva, cultural e socialmente por um protagonismo masculino e reafirma um sujeito autor homem, a exceção (a citar: a nota de rodapé, o ínfimo espaço no fim do espetáculo ou uma espécie de generosidade vangloriada em historiadores e críticos ao fazer reviver "uma mulher brilhante, que não foi reconhecida em sua época") é o que nos foi "ofertado com dignidade", um descarado prêmio de consolação para nos cerrar a boca. Ofertaram-nos também textos que - disseminados largamente com suas fontes tão retificados quanto retificadores - definem e informam sobre um fazer artístico literário, científico, político com êxitos indubitavelmente autênticos dos agente que ocupa o topo da cadeia alimentar.

 Afirmar um lugar de fala e de autoria, e tornar evidente, sim, quem faz vibrar essas palavras são também processos que, nessa mostra, revelam uma tarefa importante: o enfrentamento a quem quer nos calar. Tais instâncias políticas e poéticas estão presentes nas relações entre arte/literatura, visualidade/palavra, plasticidade/escrita que fundam os trabalhos dessa mostra: como hibridizações que reivindicam a potência de uma matéria-palavra ambiciosa em sua visualidade, tatilidade, sonoridade; em escritas que dançam como desenho; em plasticidades que vinculam  à voz, à escrita, ao corpo, ao espaço.

 A mostra biblioteca: floresta é constituída de um pequeno recorde: produções contemporâneas brasileiras que se afirmam nas relações entre artes visuais e a literatura, compreendidas como campos em expansão. Tal seleção não visou uma perspectiva historicista, tampouco panorâmica. Estão reunidas autorias que materializam como práticas narrativas, exercícios ficcionais, invenções tradutórias, fabulações, apropriações, subversões e ressignificações do universo da bibliofilia, envolvendo refeituras de texto e manuseio da matéria palavra, promovendo performatividades do dito e não dito, enfim, poéticas e pulsões criadoras de 26 artistas mulheres. 

Galciani Neves

Curadora

 

Publicações e textos sobre:

Folder digital da exposição biblioteca: floresta, 2021.

 SESC Belenzinho. 

Disponível  em: https://issuu.com/sesc_belenzinho/docs/biblioteca_floresta_publicacao_2021_p-02

Galciani Neves apresenta exposição coletiva no SESC Belenzinho

Disponível em: https://www.artequeacontece.com.br/galciani-neves-apresenta-exposicao-coletiva-no-sesc-belenzinho/