Desabrochar de um modo ou de outro, 2018

Palacete 1922 (Jorge Lobato), Ribeirão Preto, SP

Projeto realizado em parceria com o MARP - Museu de Arte Ribeirão Preto Pedro Manuel-Gismondi

Curadoria: Galciani Neves

Curadoria de programas públicos e do projeto educativo: Valquiria Prates

Ver, criar e transbordar paisagens no corpo

  Tratam-se de trabalhos que colocam em xeque de maneira sutil e construtiva a nossa percepção superficial quando discutimos arte e meio ambiente. O percurso poético de Simone Moraes abrange experimentações que se espraiam para além da simples chave “arte/natureza”, observação/representação de paisagem. Seus projetos operam uma reversão da conduta artística que desloca o lugar da produção: do ateliê (historicamente identificado como habitat íntimo e restrito de criação de um ser concentrado em falar sobre si mesmo), para uma atuação imersiva e porosa ao ambiente. O ateliê para Simone Moraes é um espaço em migração, se constitui, como um espaço de escuta, onde a artista se encontra: caminhando no cerrado, à beira de um rio, mirando o céu, nas vias de circulação urbana, negociando saberes com raizeiras, em produções coletivas (transdisciplinares, científicas, feministas), em breves anotações no espaço de seus cadernos, arquitetando flertes com a literatura, em tempos de persistência quando executa ações de longa duração.

 Em sua mostra individual, Simone nos convida a pensar com, junto e no meio ambiente. A artista nos propõe uma reformulação de nossas próprias atuações e acerca das reações do meio ambiente em sua complexidade. Nos cômodos do Palacete Jorge Lobato, localizado no centro de Ribeirão Preto (São Paulo), os trabalhos deixam-se impregnar pela arquitetura do lugar construído em 1922, desaceleram o corpo e chamam a participar dos vestígios de paisagens, das topografias orgânicas e a conviver com linhas de errância. Tais linhas são constituídas por pedras, espinhos, punhados de terra, cascas de árvores, mel, folhas e flores – resquícios que não pretendem registrar os passos da artista, mas, antes, encharcados de memórias, trazem fabulações de seus lugares incertos de origem. E, assim, nos afirmam que as modificações permanentes e transmissíveis de geração em geração no meio ambiente não são uma prerrogativa humana. Ou seja, estas colagens, convivências e sobreposições de pequenas partículas orgânicas são ignições para percebemos que as atividades do meio ambiente são como gestos que geram impactos culturais, sociais, filosóficos, históricos, políticos, assim como nos fazem perceber que nossos atributos humanos, imersos no meio ambiente, devem ser criticamente destituídos de uma lógica dominadora, extrativista e destrutiva que visa o progresso.

 O título da mostra apropria-se de uma fala de Clarice Lispector. Em entrevista realizada em 1977, veiculada pela TV Cultura, pouco antes de morrer, a escritora responde à pergunta “por que continuar escrevendo?”. Reticente, ela responde que não sabe e depois confessa que escreve sem a intenção de alterar as coisas, mas “para desabrochar”. No contexto da mostra, o excerto vem acompanhado de um subtítulo com três verbos de ação fundamentais para a poética de Simone Moraes: ver, criar e transbordar. Esses verbos tentam explicitar o movimento de desabrochar como uma abertura do corpo às potências e riscos do mundo, como atitudes que ousam desprender o corpo de um invólucro individualista e também para nos sugerir ações que podem ser de persistência, desvinculando, assim, o desabrochar de uma apologia a uma arte-ecológica reducionista ou de um retorno romântico à natureza. Ver, criar e transbordar paisagens no corpo ocorrem para, quem sabe, nos tornar cientes da necessidade urgente de mutualidade e colaboração com o meio ambiente e as formas de vida, para nos dizer o quanto nos nutrimos de uma gigantesca diversidade de viventes e o quanto deveríamos ser capazes de também nutri-los.

Galciani Neves

Curadora 

Processos de dedicação e estética

Mediação como processo de germinação

 

Duas mulheres, uma casa, um jardim. Processos de dedicação e estética. Há pouco tempo, a artista Simone Moraes plantou rosas no jardim do Palacete Jorge Lobato para Anna Junqueira, a mulher que viveu na casa com sua família no século passado. Num gesto claro de delicadeza e restauração, o ato artístico instaurou um encontro no espaço da casa, atualizando os diferentes tempos, contextos e costumes diante das pessoas que seguem encontrando a obra que desabrocha ciclicamente na área externa do edifício.

Agora, a casa abre seus cômodos para receber algumas das obras de Simone, tornar-se seu ateliê em certa medida, lugar de trabalho, mas também de cultivo de si, do lugar, de acolher pessoas e obras, tomar parte em encontros e conversas, dedicar-se ao exercício da hospitalidade, do convívio e da mediação.

 Impulsionados pela ideia de “autoria de si mesmo”, foram organizados os programas públicos da exposição Desabrochar de um modo ou de outro, e seus quatro “campos de cultivo”: coletar, desenhar, germinar e resistir. Para além de pontuarem algumas das intenções e pesquisas que mobilizam os processos de criação da artista, os campos convocam à participação ativa todos os que adentram obras e o ateliê-biblioteca aberto ao público, onde a artista, educadores e convidados colocam-se em disponibilidade para conversar e criar – sentidos, gestos, narrativas, presenças. 

 Retomando a ideia de “autoria ciente de si mesmo” e de uma “rede de relações” que geram um contexto, é importante ressaltar, aqui, que criar a si mesmo, nesse caso, não tem a ver com o conhecido ideário neoliberal de meritocracias individuais, em disputa, mas, sim, do cultivo e germinação de valores relacionais como a solidariedade e a generosidade:

 Nós, humanos, vivemos experiências estéticas em todos os domínios relacionais nos quais lidamos. É devido ao fundamento biológico da experiência estética, bem como ao fato de que tudo o que vivemos como seres humanos pertence à nossa existência relacional, que a arte se entrelaça em nossa existência social e nosso presente tecnológico em qualquer época. Afirmo que a emoção que constitui a coexistência social é o amor.

E o amor é o domínio desses comportamentos relacionais através dos quais um outro ser surge como um legítimo outro na coexistência com alguém (MATURANA, 2001, p. 195)[1].

 E, assim, tudo o que resultar dos processos de mediar e ser mediado nos programas públicos da exposição pode tornar-se, em devir, semente, adubo, aragem. Pode alimentar o circuito da arte, que é feito de pessoas e trabalhos, e suas inúmeras narrativas que se atravessam como fios de uma grande teia de conexões entre pessoas interessadas em uma boa conversa. Com arte.

 

Simone, Anna, as rosas, o Palacete e o ateliê podem seguir germinando, num cultivo sem data para acabar, de novos encontros possíveis. Nós também.

Valquiria Prates

Curadoria de programas públicos e do projeto educativo

 

[1]MATURANA, Jorge. Cognição, ciência e vida cotidiana. Disponível em: <www.biolinguagem.com/inuma/MATURANA%202001%20metadesign.pdf>.

Programação, oficinas, ações e desdobramentos:

 

"Estado de desenho e a observação do mundo", com Renata Cruz, 2018.

Oficina ministrada pela artista Renata Cruz que propõe a criação de uma paisagem coletiva formada pelas diversas ações individuais do ato de desenhar.

Deixar-se ser colhido”, com Simone Moraes, 2018.

 A partir da leitura do texto de Brígida Baltar sobre coletar e dos trabalhos de Simone Moraes, expostos no projeto “desabrochar de um modo ou de outro”, a oficina propõe olhar/enxergar o entorno em uma prática/ato/ação de recolher e acolher as ideias e elementos encontrados nesse trajeto, ressignificando-os através da técnica de monotipia. A atividade será realizada em parceria com Nilton Campos.

 

“Germinar”, com Jorge Menna Barreto, 2018.

 As crises sociais, econômicas e políticas que temos vivido muitas vezes parecem não ter solução. A ilusão de autonomia da espécie humana é em grande parte responsável por essa condição. Isolamos a nossa espécie em cidades que de maneira arrogante ditam o ritmo e o valor da vida. Demasiadamente centrada em si, a sociedade contemporânea busca dentro do pensamento humano as respostas para os seus problemas.

Essa conversa procurará investigar, a partir da arte, possibilidades de concebermos um mundo com outras centralidades para além da humana, incluindo outras espécies, estados e elementos de maneira definitiva para germinarmos imagens que considerem a vida como um fenômeno complexo, ou "aquilo que foi tecido junto".

Visita à exposição "desabrochar de um modo ou de outro", com Nilton Campos, Renato Bezerra de Mello e Simone Moraes, 2018.

 A partir dessa vivência os participantes estabelecem diálogos, conversas e trocas entre os trabalhos/pesquisas que movem os artistas durante suas produções.

"Uma conversa sobre residência artística”, com Adriana Amaral e Simone Moraes, mediação Nilton Campos, 2018.

 As artistas abordarão suas vivências em residências artísticas, tais como: Fazenda São João (São José do Vale do Rio Preto-RJ), MARP | Projeto Biblioteca Pedro Manuel-Gismondi (Ribeirão Preto-SP), Palacete 1922 (Ribeirão Preto-SP), Serrinha do Alambari (RJ), Torres Vedras (Portugal) e W residência artística (Ribeirão Preto-SP)

Da pedra ao intangível: Mário de Andrade e o projeto de preservação do patrimônio cultural”, com Maria de Lourdes Eleutério, 2018. 

 O objetivo da palestra é fazer uma abordagem da vida e obra do escritor Mário de Andrade, para entendermos sua concepção de patrimônio, advindo de diversidade cultural brasileira.

“Roda dos Saberes”, com Dona Neusa Mei, Sandra Azevedo, Simone Moraes e Victor Keller, 2018. 

 Neste encontro, Simone Moraes convida Dona Neusa Mei e Sandra Azevedo para contarem suas experiências com ervas e plantas de seus quintais, com as contribuições do biólogo Victor Keller.

 

“Escolhas, Rotas e Desvios: pesquisa e processos de criação em arte e educação”, com Valquíria Prates, 2018. 

 Exposições de arte contemporânea são pontos de encontro entre arte, educação e outras áreas do conhecimento presentes nos trabalhos de artistas, curadores e mediadores envolvidos na sua realização. Como agentes de transformação de ideias, professores e mediadores podem tornar-se participantes das proposições de contato com questões locais e globais da atualidade, estabelecendo diálogos com repertórios e contextos de todos os envolvidos.

 Este encontro pretende abordar os sentidos e funções da criação na educação em arte, a partir dos procedimentos de trabalho de artistas, curadores e educadores, tocando questões relacionadas com a interpretação, planejamento, realização e processos de avaliação como celebração em ações pedagógicas de instituições culturais e educativas.

A Forma Performance – estratégias contemporâneas”, videoconferência com Ana Montenegro, 2018.

 Esta palestra reflete o momento atual da linguagem chamada performance junto com o contexto que vivemos. Segundo Nicolas Bourriaud, os artistas contemporâneos não estão fazendo uma performance (forma que serviu nos anos 60 para interrogar a arte), mas utilizando a forma-performance com a finalidade de produzir novos significados. Ao trabalhar com formas do passado, o artista impregna um fragmento de tempo dentro da cadeia cultural, reativando a memória do espectador ao usar o material disponível ao mesmo tempo que produz novos sentidos.

“Oficina de encadernação”, com Dandara Martins, Domingos Guimarães e Elisa Piani, 2018.

 Esta oficina apresentará algumas ferramentas e técnicas para a manufatura das páginas internas e capas de livros, cadernos e cadernetas pessoais. O aluno poderá escolher desde o formato do objeto até os materiais empregados para a confecção dentre os já disponíveis. Caso deseje, o aluno poderá empregar materiais pessoais. Como resultado o objeto poderá ser levado para casa.

Proposições do educativo: 

 

"Bate-papo: arte, arquitetura e história", com Nilton Campos, Tania Registro, Henrique Vichnewski, Leila Heck e Rita Fantini, 2018.

 Bate-papo contextualizando arte, arquitetura e história, a partir das vivencias  proporcionadas através das obras/ocupação de Simone Moraes no Palacete 1922, patrimônio arquitetônico da cidade de Ribeirão Preto.