Biblioteca: Floresta, 2018

MARP- Ribeirão Preto, SP

A exposição Biblioteca: Floresta faz parte do projeto de residência da Biblioteca Pedro Manuel-Gismondi realizada no período de 2017 - 2019

Participação das artistas Aline van Langendonck, Andréa Tavares, Fernanda Porto, Janina McQuoid, Laura Berbert, Lívia Aquino, Lucia M. Loeb, Maíra Dietrich, Mayra Martins Redin, Natalie Salazar, Paloma Durante, Raphaela Melsohn, Raquel Stolf, Regina Parra, Renata Cruz, Santarosa Barreto, Simone Barreto e Simone Moraes.

 

Curadoria de Nilton Campos, Galciani Neves e Simone Moraes.

A exposição discutiu experimentações que mesclaram procedimentos poéticos do campo das artes visuais e da literatura. Assim, textos, narrativas ficções, palavras foram conjugadas no feminino. Em tempos de intensas lutas, reinvindicações de discussões que alertam para a intensa desigualdade de gênero, os trabalhos das 18 artistas, que compuseram a mostra, reivindicaram um olhar apurado do público para a palavra como matéria-prima e para o lugar de fala da mulher na contemporaneidade. Aproximações de livros, ficções, fabulações imagéticas, áudios, desenhos, pinturas, performances, textos e instalações site-specific integram a mostra.

“Fico besta quando me entendem¹ ” ou recusar a literatura do outro 

 A mostra biblioteca: floresta acontece no MARP inscrita nas obras de Aline van Langendonck, Andréa Tavares, Fernanda Porto, Janina McQuoid, Laura Berbert, Lívia Aquino, Lucia M. Loeb, Maíra Dietrich, Mayra Martins Redin, Natalie Salazar, Paloma Durante, Raphaela Melsohn, Raquel Stolf, Regina Parra, Renata Cruz, Santarosa Barreto, Simone Barreto e Simone Moraes. Onde nos reconhecemos parceiras, arquitetamos um lugar de encontro. E é nesse lugar de encontro, que também é de ebulição, de insistência e de perturbação, que criamos um ar possível para inventarmos o que está dentro, fora da palavra, em fluxo; e onde podemos sentir o inflamável embate arte/literatura.

 A saber, nossas deambulações. Movimento 1: conversa-convite para adentrar os desdobramentos de uma biblioteca sendo desempacotada – o pó, a primeira palavra e a derradeira, escrita de terra, floresta de livros. Movimento 2: espiar em nossas próprias estantes e cabeceiras

quem estamos lendo, um espelho implacável, um fundo de gaveta revelador – somos poucas entre nós mesmas. Movimento 3: o que perseguimos quando estamos pensando em literatura, ficção, narrativa, poéticas artísticas, lugar de fala?

 Sugerimos, então, que pensemos na ideia de explosão, seguida de borramento. Uma tentativa de negar as categorizações de linguagens e abrir-lhes linhas de fuga, sair de um lugar para outro, destituir as fronteiras, e, assim, desestratificar suas geografias. Mover-se ao mesmo tempo em que se movem as coisas e espaços em torno de si. Arte/Literatura: uma labuta hibridizante, que aniquila limites ao passo que mantém comunicantes e transbordantes essas linguagens.

 Em tempo, é preciso esclarecer que, em volta dessa vasta e plural contaminação de procedimentos, as obras apresentadas estão livres de qualquer tarefa instrumentalizadora, seja no campo da arte ou da literatura, e não carregam nenhuma intenção de elaborar uma gênese dos horrores de nossas privações (destas já bem sabemos e seguimos juntas, em alerta). Ainda assim, podemos nos arriscar a pensar que, atravessando essas autorias, há uma modulação comum e constituída subjetivamente: desmandar o esquema de dominação e exclusão que nos colocou à margem e arquitetar junto com o público inquietações acerca de e para além de um problema feminino/feminista². A vontade é: agir na margem e em outras tantas, infiltrar e gerar frestas no epicentro, navegar em direção ao embate contra as brutalidades patriarcais e masculinizantes, tendo a arte e a literatura como prática em que nos arriscamos entre a falha e a potência.

Galciani Neves

Curadora

 

¹ Título do livro de entrevistas realizadas com a escritora Hilda Hilst, entre os anos de 1952 a 2002.

² Em linhas curtas, é preciso deixar claro: “A complexidade do conceito de gênero exige um conjunto interdisciplinar e pós-disciplinar de discursos, com vistas a resistir à domesticação acadêmica dos estudos sobre gênero ou dos estudos sobre as mulheres, e a radicalizar a noção de crítica feminista” (Butler, Judith P. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017).